A realidade está estruturada por forma a não ser objectivamente possível ao ser humano ter certezas absolutas sobre as verdades primas; apenas crenças. A vida, em sentido absoluto, não é susceptível de ser definida inequivocamente e para lá de qualquer interpretação subjectiva, porque todas as definições desembocam inevitavelmente num rio compósito de cultura, religião, política e filosofia.
Tudo parece estar, portanto, imerso na subjectividade da filtragem sensorial dos observadores e no relativismo conceptual de todas as definições.
No entanto, o Homem, enquanto ser participativo na História, aliás o seu principal impulsionador, não pode deixar de se questionar sobre essas verdades. Por um lado, porque essa busca está inscrita na sua própria natureza; por outro, porque através dela procura princípios que guiem a sua conduta. E como procurá-los?
Empregando a sua própria natureza, o logos. O ser humano, sendo dotado de razão, deve aplicá-la na busca das definições últimas. Todavia, não as deve formular como sendo postulados aceites de modo incontestável e inconcusso, uma vez que as preposições auto – evidentes fazem parte da fé ou de alguns tipos de filosofia. Não desse modo, porque à razão não pode ser alheia a noção da sua própria falibilidade.
O modo o pelo qual a razão empreende tal demanda é mediante a investigação profusa da realidade, de modo a dela recolher indícios que, uma vez analisados, sejam de molde a possibilitar a formulação de juízos valorativos que, não sendo nem podendo ser certezas, têm uma aparente maior probabilidade de corresponderem a emanações daquelas verdades do que o seu contrário.
O método mais conciso de análise da realidade é o método científico. Nesse sentido, deve a razão alicerçar-se na ciência. Que nos mostra, desde logo, mas não apenas, que no nosso universo os valores das constantes fundamentais, as leis físicas e condições, são tais que a ínfima alteração aos mesmos seria susceptível de impossibilitar a existência de vida tal como a conhecemos no 3º planeta a contar do sol, ou mesmo de qualquer estrutura complexa. O que leva mesmo o físico Paul Davies a afirmar que a vida é algo que está escrito nas leis básicas do universo de uma forma fundamental.
Como se o próprio universo desejasse a vida; como se existisse para vir a albergá-la um dia - eis um daqueles juízos valorativos probabilísticos. Como se, dele gerados, tivéssemos o nosso quinhão de responsabilidade na protecção da mesma, através da humanização das nossas atitudes – eis um modo de agir nele fundado.
Um código de conduta sustentado numa probabilidade séria, no qual a razão se nivela por cima. Mesmo quando assente, em última análise, numa incerteza.
Talvez seja melhor assim. Porque quem acredita que possui os fundamentos da realidade, sem perceber que são os fundamentos que nos possuem a nós, tende a cair na irracionalidade do fundamentalismo.
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1 comentário:
Isto faz-me recordar a nossa última conversa..."nada se perde, tudo se transforma"...e faz-me recordar a pergunta que não cheguei a formular...em que se transforma um conceito abstracto criado por nós chamado consciência?
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