quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Linguagem corporal

A superior fiabilidade da linguagem não verbal é, ao mesmo tempo, o seu calcanhar de Aquiles: verdadeira porque espontânea, mas espontânea porque reactiva - e não criativa. Um gesto, um olhar, um tom de voz, dizem muito do emissor; estão longe de lhe perscrutar a alma. Porque ninguém é só aquilo que reage, mas também aquilo que sonha e em prol do que age.




Comércio tradicional

Quando o empregado não olhar de soslaio o cliente por entre as cruzetas; quando o patrão deixar de repetir fórmulas monocórdicas de atendimento para impingir o freguês (culminando invariavelmente no detestável "e maisssss?"); e quando este não temer pela sua integridade física quando opta por não comprar - então talvez aí se absolvam as grandes superfícies e se inverta a crise do comércio tradicional.
Porque toda a gente tem saudades de um certo acompanhamento personalizado - e da saudosa estética inerente, como o lápis atrás da orelha. Mas o dedo molhado na saliva para retirar o guardanapo com que somos servidos já é cunho pessoal levado ao absurdo.






quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Sentido de humor

Mais do que uma mera característica da personalidade ou simples forma de entretenimento, o sentido de humor pode ser o último reduto defensivo da sanidade mental: quando a paciência esgotada extravasa os limites da resignação, é a única alternativa credível ao desespero.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Populismo

Nas altas esferas, distinguem-se dois tipos de oratória: de um lado, o politicamente correcto, estereotipado, enfadonho, qual mulher-a-dias das castas instaladas cuja única tarefa é polir o verbo; do outro, a logorreia expansiva e incontida do finório que dispara em todas as direcções, exaltado e delirante.
Haverá outra alternativa?
Talvez não. É que quando uma terceira espécie de discurso aparece, ousando pôr o dedo na ferida sem lenitivos nem peçonha, é logo qualificado de populismo - e como tal rejeitado por não ser conforme à poeira eufemística.
Irónico - é que, se populismo se pode definir como simpatia pelo povo ou prossecução de políticas que lhe agradem, a conotação negativa da palavra é uma machadada na própria base do regime democrático. No fundo, sugerindo que, na hora de decidir, o povo não manda nada.