quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Machismo

A guerra dos sexos, ainda e sempre, a guerra dos sexos. Justiça seja feita às mulheres: abriram as hostilidades; mas era o único meio de se libertarem dos grilhões do machismo. Como em todas as guerras, porém, os bons e os maus existem dos dois lados da barricada; assim que, qualquer tentativa maniqueísta de analisar a situação está ferida de facciosismo. Portanto, sem prejuízo de reconhecer que foi o machismo que deu causa ao conflito, cabe definir o conceito, sob pena de se empreender uma caça às bruxas aos inocentes desse delito (geralmente por mulheres histéricas) e para procurar identificar e combater os verdadeiros culpados.
Antes de mais e literalmente, machismo tem a ver com atitudes de macho: é o trolha que manda piropos de gosto duvidoso à senhora que passa na calçada, o rapazola que bebe canecas de cerveja de um só trago para impressionar os amigos, o condutor que se envolve em picanços no trânsito para provar sabe-se lá o quê ou o indivíduo que deleitadamente esfrega as vergonhas em público. Evidentemente, não é este o significado que interessa analisar, pois o conceito, no seu âmago mais nocivo, extravasa em muito estas patetices.
A concepção de machismo abrange um extenso leque de derivações, umas típicas, outras atípicas. Todas elas são, no entanto, unidas por um denominador comum, que é precisamente o elemento essencial do conceito ou a sua condição sine qua non: a ideia de que na ordem natural das coisas existe uma superioridade do homem em relação à mulher, com a consequente legitimação da subalternização dela. E no decurso dessas variadas manifestações encontram-se diferentes graus de machismo, que vão do mais incipiente ao mais fervoroso.
O machismo de 5ª categoria é um insulto aos puristas do género; é caracterizado apenas pela existência de laivos esporádicos de discriminação, resultantes de uma educação antiquada e da cultura social vigente, sem que lhes corresponda porém uma séria doutrinação; este machista invoca, aqui e ali, lugares-comuns à mentalidade (como afirmar que o lugar da mulher é na cozinha), mas fá-lo de modo pouco convicto e aceita, de uma forma geral, a igualdade.
O machismo de 4ª categoria comporta já alguma teorização, assim como um nível de convicção maior; para este machista, as evidentes e naturais desigualdades entre os sexos (os meninos brincam com carrinhos e as meninas com bonecas, os rapazes preferem filmes de acção e as raparigas comédias românticas) são emanações de princípios absolutos; concluem então que determinadas actividades devem ser atribuídas às mulheres, ao passo que outras tantas têm que lhes ser vedadas por serem próprias de homem. Regra geral, rosnam baixo e não são muito incomodativos.
O machismo de 3ª categoria distingue-se do anterior pela circunstância de o machista passar das simples convicções à militância activa, começando pela orientação da atitude da própria família de acordo com os seus princípios retrógrados e podendo estender-se até à promoção de políticas sexistas.
O machismo de 2ª categoria traz consigo o manto obscuro da repressão; evidencia-se pelo emprego da constante coacção moral e do recurso covarde à violência física contra a mulher indefesa.
Por fim, o mais tenebroso de todos, o machismo de 1ª categoria; monstro patológico de ignorância e bruteza, este machista chega a sofrer de misoginia (horror às mulheres). Quando incorporado na própria doutrina social de um Estado, necessariamente autocrático, atinge o expoente máximo de opressão e extremismo.
São estes os graus, é aquele o denominador comum; porém verifica-se a existência de outro fio condutor que os une: o facto incontornável de todos eles serem ilusões baseadas em preconceitos.
Homens e mulheres têm aptidões físicas e psicológicas diversas? Têm. Essas características distintas são produto da evolução natural? São. Essa diversidade leva-os a comportamentos sociais diferentes? Leva. É legítimo impor essa diferença? Rotundamente, não.
Por outro lado, há toda uma panóplia de acções, muitas delas delituosas, executadas por homens contra mulheres que, aparentemente machistas, não o são precisamente por lhes faltar o seu elemento essencial: é o caso do homem que manda a mulher para a cozinha simplesmente porque ela cozinha bem e ele não (quando muito será mal educado e egoísta) ou do marido que bate na mulher tal como bate no filho (simplesmente porque é uma besta); apesar de reprováveis, as suas condutas não são animadas por qualquer ideia de discriminação.
Para concluir, de referir que, por estranho que pareça, também as mulheres podem ser machistas - basta pensar na eventualidade de uma lesbiana activa incorporar no seu pensamento a superioridade masculina (para além dos trejeitos congéneres).
Seja como seja, admitir as diferenças entre homens e mulheres é constatar a diversidade; crer na obrigatoriedade de os colocar em compartimentos estanques, uma asneira. Afinal, podem haver dois géneros, mas há uma só Humanidade - logo, só pode haver um Direito Natural. Portanto, nenhum tipo de machismo faz sentido.






























7 comentários:

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...

O machismo é a defesa dos parcos em ideias e o instrumento de ataque dos ignorantes ...

Anónimo disse...

O machismo poderá vir do sentimento de inferioridade que o homem sente em relação à mulher. A psicologia ensinou-me que a pessoa que tem necessidade de demonstrar a sua superioridade aos demais, neste caso, à mulher "amada" fá-lo para ocultar a sua inferior. Ou domina porque deseja ser dominado. No entanto, existem mulheres que desconhecem totalmente, o poder que têm dentro de si e acreditam na superioridade do seu “amado”.

Ana

Anónimo disse...

Até porque, quando ele chega a casa, do trabalhinho: tarefa número um sentasse no sofá começa a regurgitar:
- Ó M acende a televisão. E a M acende a televisão.
- Ó M traz a cerveja. E a Maria leva a cerveja.
- Faltam os tremoços. E a M cheia de peninha leva-lhe os tremoços, enquanto prepara o jantar, cuida dos filhos, da roupa, da casa, ou seja, faz tudo aquilo que aprendeu e considera ser as obrigações de uma mulher, julgando estar a honrar o papelito que assinou diante do notário, com a bênção de Deus, ao qual, para não se esquecer do belo momento, juntou algumas fotos e até um vídeo.

Anónimo disse...

Até porque, quando ele chega a casa, do trabalhinho começa a regurgitar:
- Ó M acende a televisão. E a M acende a televisão.
- Ó M traz a cerveja. E a M leva a cerveja.
- Faltam os tremoços. E a M cheia de peninha leva-lhe os tremoços, enquanto prepara o jantar, cuida dos filhos, da roupa, da casa, ou seja, faz tudo aquilo que aprendeu e considera ser as obrigações de uma mulher, julgando estar a honrar o papelito que assinou diante do notário, com a bênção de Deus, ao qual, para não se esquecer do belo momento, juntou algumas fotos e até um vídeo.

Ana

Anónimo disse...

E se calhar o que ele quis dizer com o «… Ó M acende a televisão… Ó M traz a cerveja… Ó M faltam os tremoços» poderia ser:
- Vem para a minha beira cariño. E a M como tinha que terminar o jantar, lavar, passar e cuidar dos filhos, tarefas de uma esposa estremada, não pode, ou não quis ir para perto do seu amor, pois estava muito ocupada, e se calhar até estava.

Talvez não tivesse ocorrido a M que, talvez, o seu amorzinho a pudesse ajudar nas tarefas da esposa estremada, bastava se calhar pedir. Pedir??? Mas é ele que tem que se oferecer, afinal de contas ele, como é o homem e eu sou a mulher, cabe ao homem tomar a iniciativa.

Mas ele, como até não quer perturbar o bom desempenho das tarefas da esposa estremada, não se oferece pois pode-lhe ocorrer que, se calhar, ela não me quer perto dela, uma vez que ela não vem para perto de mim.

É por situações como esta que muitos casais vão parar às terapias de casal e/ou sexual e até familiar, porque desconhecem algo que é fundamental para a convivência – COMUNICAR.


Beso


Acho que já deu para repara que meti água quando toquei na tecla errada e o comentário do anónimo disse…, contra a minha vontade, foi parar ao teu blog, sorry. Foi a minha parte inexperiente a responder, até porque foi a primeira vez. Mas como eu sei que és mais racional que eu, felizmente, vais relevar o erro e apagá-lo. Até porque errar é humano.

Anónimo disse...

Porquê vergonhas?

O nosso corpo é uma obra de arte, belíssima e biologicamente natural.

Este blogue não aceita vídeos, assim sendo e, se assim o desejares, vai a este site: http://www.youtube.com/watch?v=mgfJ5OH7spc&feature=related
(Shaktí)

e

http://www.youtube.com/watch?v=EKaIAj16iio&feature=related
(Shiva)



e comprova, com os teus próprios olhos, a obra de arte que todos nós somos.

Beso