"Onde há galo, galinha não canta" e "Em casa de varão manda ele e ela não" são aljôfares de sabedoria popular que ainda hoje se ouvem. Provenientes do machismo mais enraizado, derivam de padrões comportamentais que remontam à pré-história: o macho australopiteco, nada versado na arte da sedução (porém imbatível na técnica de engate), depois de tomar a fêmea desejada arrastava-a para a caverna. Uma vez saciado, ia caçar, enquanto ela ficava a cuidar das lides da gruta e da domesticação da prole. E tudo se processava sem grandes contestações.
A parceria opressora manteve-se ao longo de toda a História: de um lado eles, mandantes e independentes, do outro elas, solícitas e parideiras, numa cultura falo cêntrica em que as mulheres pouco mais eram do que um objecto.
Na década de 60 do século passado, a viragem local: na sociedade ocidental florescem o movimento hippie, a revolução sexual e o feminismo. Este preconizava a igualdade entre os sexos, promovendo e exaltando a personalidade, carácter e capacidades das mulheres, em detrimento da mera valorização exterior, vista como fútil e superficial. E inúmeras conquistas foram asseguradas por essa imprescindível rebelião, quer ao nível do próprio corpo quer nos mais variados quadrantes sociais, do trabalho à política.
Com o virar do século assiste-se, porém, a um fenómeno retroactivo: a mulher moderna e bem nutrida dos chamados países desenvolvidos, prestes a libertar-se das amarras do machismo, anseia por uma espécie de regresso reciclado ao passado. Paradoxalmente, ambiciona em simultâneo ser levada a sério e constituir-se como um objecto pitoresco de desejo. Almeja a fama a qualquer custo, nem que para tal seja preciso achocalhar-se em reality shows duvidosos; aspira a ser figurante alegadamente sensual em capas de revistas masculinas; assoma na publicidade em constantes exibições públicas de equívoco erotismo; embrenha-se na noite em vestes provocatórias; é escrava das modas e dos modelos artificiais de beleza por elas ditados; e cada vez mais valoriza a carteira recheada como critério de escolha de companheiro.
Basta folhear qualquer revista feminina para constatar que longe vão os tempos de queimar soutiens ou deixar crescer tenebrosos apêndices capilares nas axilas: essa mulher actual sucumbiu ao primitivo apelo natural para se ornar com garridice e exibir com vaidade, identificando-se crescentemente com o exterior e valorizando-se conforme a capacidade de fazer o macho salivar.
Tudo isto enquanto nos antípodas, em culturas autocráticas ou aborígenes, verdadeiras heroínas são continuamente sujeitas a todas as formas de degradação, humilhadas e curvadas sob o jugo torcionário de algozes mais próximos de hominídeos do que de homens. Vivendo existências atormentadas, sofridas. Mas que, mesmo nessa desesperada carência por emancipação e contra todas as probabilidades, não desistem de acalentar a esperança de liberdade. Essas sim, verdadeiras feministas, de quem nos chegam constantemente relatos do sofrimento, mas também de um desconsolado encanto: engolfadas em tanta crueldade, ainda assim conseguem cultivar valores essenciais de amor e humanidade.
Quanto a oeste, algo de novo: uma mulher aburguesada, descendente de um feminismo do tipo ferrão de abelha, que após exercer com êxito a função para a qual foi criado, desfalece, moribundo. No íntimo, porque quer, embora de forma tácita e consentida, continuar a ser (ainda que docemente) dominada.
Os machistas agradecem.
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9 comentários:
Desculpa, Miguel, mas apenas consigo dizer que as duas últimas frases são ridículas!!!!
Mara
O texto não estava terminado aquando do teu comentário, pelo que, presumindo que não hajas interpretado a mensagem conforme a pretendia veicular, não levo a mal a contundência do adjectivo que empregaste.
Se, porém, no caso de o leres agora, a tua opinião permanecer, talvez então sejas uma optimista inveterada.
Em qualquer dos casos, é evidente que as tuas desculpas são aceites, mesmo sendo desnecessárias.
É verdade, Miguel, ainda não tinha lido o texto todo. E sim, agora gosto bem mais do texto :). Muito bem redigido, aliás como todos os outros. Parabéns pela forma como que escreves!
Mara
Muito interessante... :)
Angelica
Pois eu acho a tua escrita tremendamente artificial. Uma tentativa frustrada de parecer intelectual. Se calhar devias começar a pensar em escrever sem tentar mostrar às pessoas que conheces muitas palavras caras pois acredita-me quanto te digo que não é isso que faz de ti um bom escritor. Soa mesmo a falso, embora os temas que abordas tenham o seu interesse, independentemente de concordar ou não com a tua perspectiva, perdem com esse teu pavonear gramatical. Quanto ao tema abordado, acho, como em todos os outros temas, que foges continuamente ao que propõe o título. Se te pretendes defensor das Mulheres, o primeiro erro foi ao emitires esta opinião, dado que as mulheres, tal como os homens, têm o direito de ser exactamente aquilo que querem sem que alguém como tu comece logo a apontar o dedo, como se as Mulheres tivessem que estar constantemente a provar o seu valor."Paradoxalmente, ambiciona em simultâneo ser levada a sério e constituir-se como um objecto pitoresco de desejo. Almeja a fama a qualquer custo, nem que para tal seja preciso achocalhar-se em reality shows."Eu assisto a esta realidade nos dois sexos, acho que precisas olhar melhor à tua volta. Não são "as Mulheres" mas sim a sociedade como um todo, deves ter um filtro óptico... Ao separares as coisas estás a ser o mais machista dos machistas, ao exigir que a Mulher se deva comportar de determinada forma para ser alguém, enquanto o homem pode fazer as piores barbaridades mas ninguém fala nisso. Aí começa o machismo, exactamente nas mentalidades de pessoas como tu. Porque na tua cabeça a igualdade é uma utopia. Eu, pessoalmente, como mulher, sinto-me lesada por pensamentos retrógrados como o teu mas, em qualquer dos casos, é evidente que as tuas desculpas são aceites, mesmo sendo desnecessárias...
Não seria necessário ler o teu comentário inteiro para presumir, com algum grau de previsibilidade, que não irias assinar no fim. Todavia, procurarei responder-te, sempre sob a égide do respeito.
Aceito que não gostes da minha escrita; mas, a avaliar pelo conhecimento que dizes ter dos meus textos (afirmas que fujo continuamente ao tema que me proponho apresentar), parece que
te dás ao trabalho de os ler na íntegra; porque perdes então o teu tempo?
Dizes que eu devia tentar escrever sem querer mostrar às pessoas que conheço muitas palavras, o que significa que estás convicta de conhecer o meu real processo de intenções. Como podes ter a certeza? E serás partidária de que o português é para empoeirar estantes?
O dicionário chama-se pessoal precisamente por exprimir visões pessoais; não pretende dissecar os temas em toda a sua profundeza, apenas apresentar certos prismas particulares. Senão talvez se devesse chamar "monografias".
Quanto ao tema em apreço, em primeiro lugar, eu não me pretendo defensor nem carrasco das mulheres; em segundo (o que te parece ter escapado) eu refiro-me muito concretamente a uma determinada universalidade de mulheres - não generalizo, como generaliza o teu comentário. E quanto a essas, limito-me a factuar: basta olhares à tua volta. Se calhar nem será preciso, posto que nem sequer contrarias esses factos, simplesmente te limitas a dizer que elas têm o direito de serem como quiserem. Pois têm.
Acusas-me de ter um filtro óptico por não dizer que também os homens são assim. Eu sei que são: mas, por um lado, o tema não eram os homens; por outro, a maioria deles deseja ardentemente ser tratado como um objecto (se é que me entendes).
Acresce que em parte alguma eu exigi que as mulheres se devessem comportar desta ou daquela maneira. Literalmente.
Por fim, declaras-me culpado de machismo. Justamente, não deves estar familiarizada com o conceito de machismo: é a ideologia segundo a qual o homem subalterniza a mulher, dominando-a ou procurando com afã dominá-la socialmente. Ou seja, precisamente aquilo que eu critiquei com severidade.
Bem-haja, desconhecida.
Reiterando apesar de tudo o respeito que por ti nutro, quer-me parecer que o sentimento não é recíproco. Como tal, e também pelo intrigante facto (ou não) de não assinares uma vez mais, removi a tua contra-resposta; isto não é o repositório da tua amargura.
Cutucas a ferida com bastante "savoir faire". É um assunto melindroso, tal como o machismo e, até mesmo, a religião, e cada um se sente mais ou menos lesado. Pessoalmente concordo com o que dizes mas admito que usas expressões bastante fortes, transformando um inocente texto num pau de dois bicos e arrancando com isso reacções. Contudo, tudo é melhor do que a impassividade...
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