Lamenta-se o Zé Cid das terras de Sua Majestade (Elton John, para quem não estiver familiarizado com a analogia) que "sorry seems to be the hardest word". A queixa assume contornos de melodrama quando a ele se junta uma cambada de mocetões bem-parecidos com ar sofredor, de seu nome "Blue": expressões faciais de angústia, gestos criteriosamente coreografados e vozes semi-embargadas pela aflição, numa apelação plástica e lamecha à sensibilidade lúbrica das petizas (mais do que um público-alvo, a única razão de ser da existência do produto).
Teatral. Mas pior do que o caliginoso trecho em si é esta ideia que transmite, de que o simples acto de pedir desculpas é quiçá o mais árduo encargo que pode incidir sobre alguém, uma hercúlea tarefa só ao alcance dos predistinados: não é. Portanto, não se deve andar aí a deseducar as adolescentes.
Na verdade, pedir desculpas é relativamente fácil; o difícil é evitar as atitudes nocivas que subjazem ao pedido. Aliás, deve ser a isto que aludem aqueles que vociferam que as desculpas não se pedem, evitam-se (se assim for, estão enganados, pois constituindo elas apresentações de motivos tendentes a atenuar a culpa ou expressões de arrependimento, se forem evitadas não haverá retractação nenhuma, o que soa a injustiça ainda maior).
Mais do que uma acentuação de carácter, um pedido de desculpas sincero é indício de maturidade - através dele, o rogador procura remendar uma falta de pequena ou média gravidade (para casos de maior gravidade o pedido adequado é o de perdão). E desengane-se quem crê na desnecessidade de se retractar quando o dano é mínimo ou mesmo aparentemente inexistente: tal como a água mole em pedra dura, também as pequenas perniciosidades vão deixando marcas sob a forma de mágoas acumuladas, corroendo laços de afectividade que acabam por apodrecer.
Menos empáfia, mais correcção, e lançam-se as bases para a reconciliação. Afinal, mesmo aquele tema admite, num rasgo de siso, que (fugir desse dever) "it's a sad, sad situation and it's gotten more and more absurd".
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2 comentários:
Gostava de te escrever algo eloquente sobre Desculpa... mas as palavras vão faltando sobre um tópico tão vasto e com tantos significados.... se às vezes devemos pedir desculpas... outras vezes devemos ficar calados e ignorar a necessidade de nos desculpar-mos por acções impetuosas que foram ditadas pelo nosso ser interior... devemos ponderar se essas desculpas não vão contra a nossa forma de ser e de estar... ponderar se esse pedido não nos vai fazer cair num abismo maior do que o acto que foi inadquado para os outros...
As desculpas nunca se evitam: enfrentam-se. Por muito que nos custe proferir tão pequena palavra, há que admitir que erramos e ter maturidade suficiente para o fazer perante nós e o alvo da nossa retractação. É das poucas alturas em que dar "tempo ao tempo" é mais maléfico do que benéfico.
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