Aptidão para dar ao laço, dedo ligeiro e premente no gatilho, domínio da cavalgaria mais veloz, propensão para emborcar whisky. Ou então a imagem melancólica de um vulto sombrio e errante, no dorso de um cavalo a trote, em direcção ao pôr-do-sol. Talvez tocando harmónica para enganar a solidão. Tudo isto são estereótipos dos filmes do oeste longínquo; todos eles constituem apelos a uma nostálgica e selvagem masculinidade.
Mas o quadro não ficaria completo sem a expectoração, espontânea ou provocada. Aquele momento agridoce em que qualquer cowboy que se prezasse deveria remeter-se ao silêncio e, numa calma sem pestanejes, puxar de um escarro. O parceiro fez batota no poker? Nada de insultos ou histerias efeminadas, pouco dignificantes: apenas um olhar duro, glaciar. Seguido da delonga, do suspense. E finalmente, da cuspidela, espessa, abundosa, em alternativa à berraria. Tudo isto eram preciosos instantes de recolhimento que antecediam a acção.
O que acontece hoje em dia? Perante situações de conflito, tantas vezes fúteis, o varão ofendido discute inutilmente, grita desbragadamente e gesticula num frenesim. Porquê? Porque não teve autocontrolo. Porque não se retirou para dentro de si mesmo para avaliar a situação friamente. Se calhar, porque não parou para pensar. E escarrar.
Cuspir para o chão é hoje tido como falta de civismo? Naturalmente. Por isso mesmo, deveriam, à imagem do velho oeste, ser instaladas cuspideiras em pontos estratégicos. Escarradeiras para usarmos e abusarmos quando fossemos confrontados com certas ocasiões adversas. Já não apenas como substituto da contenda verbal, como nos tempos dos saudosos vaqueiros (que depois do referido acto normalmente encetavam a bordoeira da praxe), mas sim ao serviço da contenção, da verdadeira civilidade. Em face de uma contenda e ante a possibilidade de a evitar, o indivíduo remeter-se-ía a um instante de ponderação e expulsaria o seu fervor pelo cuspo, moderno, de fino recorte, devidamente direccionado ao escarrador. Com respeito pelos presentes e para secreta admiração das mulheres. Depois desse momento de catarse, uma de duas: ou promoveria o diálogo, ou arrepiaria caminho. E uma cuspidura sentida poderia valer mais do que uma palavra inopinada.
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2 comentários:
Um visão muito peculiar de resolver conflitos ;)
Angelica
Um sorriso vale mais do que mil palavras. E fizeste-me sorrir....
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