segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Civilização

Num conhecido aforismo, o famoso escritor de ficção científica Arthur C. Clark afirmava que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia. Houvesse uma máquina do tempo e pudesse um habitante de séculos remotos visitar-nos, decerto se espantaria num maravilhamento mais ou menos sobressaltado, misto de prazer inesperado e temor reverencial, confirmando as palavras do autor (embora nem fosse preciso ir tão longe - bastaria dizer que, na primeira vez em que um jipe entrou no Butão, aldeões fugiram em desespero por julgarem tratar-se de um dragão, enquanto outros, mais corajosos, aproximaram-se do veículo para lhe oferecerem comida).
A afirmação adquire cada vez mais propriedade, tais são os assombrosos avanços da técnica e electrónica modernas, dentre os quais se destaca a nanotecnologia - a tecnologia em miniatura, que, no limite, poderá permitir o próprio reordenamento dos átomos por forma a criar qualquer objecto desejado ou estrutura possível de acordo com as leis da física!
A marcha do progresso científico é impetuosa; todavia, ao conduzir o Homem no sentido do desenredo da natureza e da sua manipulação para fins próprios, confere-lhe um poderio imensurável: no extremo, a força para se autodestruir, seja através da poluição irreversível do meio ambiente ou mediante um conflito nuclear. E a seta deste desenvolvimento é inexoravelmente ascendente, sem estorvo do perigo que comporta.
Tamanha evolução é derivada da civilização, porém esta não se resume a um desenvolvimento científico e tecnológico; a sua concepção abrange todo um vasto conjunto de preceitos que enformam a cultura social respectiva, desde os seus usos e costumes às suas artes. No entanto, não existe genuína civilização sem liberdade, assim como não há liberdade sem respeito pelos direitos dos outros; pelo que um dos seu elementos essenciais é o Direito, preventivo e repressivo.
Alardearão os tribalistas militantes, tão em voga na actualidade, que o homem urbano, com a sua técnica moderna e sofisticada, se afastou irreversivelmente da natureza e se tornou frio e automatizado; os mais afoitos proclamarão mesmo o regresso às origens indígenas. Mas tal seria cercear inelutavelmente a característica instintiva e distintiva do ser humano de ir cada vez mais longe, inclusive no que à investigação dos fenómenos do nosso cosmos concerne.
A civilização surge então como a camisa-de-forças da animalidade: o único envoltório capaz de, a um tempo, e apesar dos riscos inerentes, propiciar ao ser humano as condições para realizar todo o seu potencial inato e aventureiro e refrear (pelo menos em parte), a sua índole selvagem, humanizando-o.

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