A guerra dos sexos, ainda e sempre, a guerra dos sexos. Justiça seja feita às mulheres: abriram as hostilidades; mas era o único meio de se libertarem dos grilhões do machismo. Como em todas as guerras, porém, os bons e os maus existem dos dois lados da barricada; assim que, qualquer tentativa maniqueísta de analisar a situação está ferida de facciosismo. Portanto, sem prejuízo de reconhecer que foi o machismo que deu causa ao conflito, cabe definir o conceito, sob pena de se empreender uma caça às bruxas aos inocentes desse delito (geralmente por mulheres histéricas) e para procurar identificar e combater os verdadeiros culpados.
Antes de mais e literalmente, machismo tem a ver com atitudes de macho: é o trolha que manda piropos de gosto duvidoso à senhora que passa na calçada, o rapazola que bebe canecas de cerveja de um só trago para impressionar os amigos, o condutor que se envolve em picanços no trânsito para provar sabe-se lá o quê ou o indivíduo que deleitadamente esfrega as vergonhas em público. Evidentemente, não é este o significado que interessa analisar, pois o conceito, no seu âmago mais nocivo, extravasa em muito estas patetices.
A concepção de machismo abrange um extenso leque de derivações, umas típicas, outras atípicas. Todas elas são, no entanto, unidas por um denominador comum, que é precisamente o elemento essencial do conceito ou a sua condição sine qua non: a ideia de que na ordem natural das coisas existe uma superioridade do homem em relação à mulher, com a consequente legitimação da subalternização dela. E no decurso dessas variadas manifestações encontram-se diferentes graus de machismo, que vão do mais incipiente ao mais fervoroso.
O machismo de 5ª categoria é um insulto aos puristas do género; é caracterizado apenas pela existência de laivos esporádicos de discriminação, resultantes de uma educação antiquada e da cultura social vigente, sem que lhes corresponda porém uma séria doutrinação; este machista invoca, aqui e ali, lugares-comuns à mentalidade (como afirmar que o lugar da mulher é na cozinha), mas fá-lo de modo pouco convicto e aceita, de uma forma geral, a igualdade.
O machismo de 4ª categoria comporta já alguma teorização, assim como um nível de convicção maior; para este machista, as evidentes e naturais desigualdades entre os sexos (os meninos brincam com carrinhos e as meninas com bonecas, os rapazes preferem filmes de acção e as raparigas comédias românticas) são emanações de princípios absolutos; concluem então que determinadas actividades devem ser atribuídas às mulheres, ao passo que outras tantas têm que lhes ser vedadas por serem próprias de homem. Regra geral, rosnam baixo e não são muito incomodativos.
O machismo de 3ª categoria distingue-se do anterior pela circunstância de o machista passar das simples convicções à militância activa, começando pela orientação da atitude da própria família de acordo com os seus princípios retrógrados e podendo estender-se até à promoção de políticas sexistas.
O machismo de 2ª categoria traz consigo o manto obscuro da repressão; evidencia-se pelo emprego da constante coacção moral e do recurso covarde à violência física contra a mulher indefesa.
Por fim, o mais tenebroso de todos, o machismo de 1ª categoria; monstro patológico de ignorância e bruteza, este machista chega a sofrer de misoginia (horror às mulheres). Quando incorporado na própria doutrina social de um Estado, necessariamente autocrático, atinge o expoente máximo de opressão e extremismo.
São estes os graus, é aquele o denominador comum; porém verifica-se a existência de outro fio condutor que os une: o facto incontornável de todos eles serem ilusões baseadas em preconceitos.
Homens e mulheres têm aptidões físicas e psicológicas diversas? Têm. Essas características distintas são produto da evolução natural? São. Essa diversidade leva-os a comportamentos sociais diferentes? Leva. É legítimo impor essa diferença? Rotundamente, não.
Por outro lado, há toda uma panóplia de acções, muitas delas delituosas, executadas por homens contra mulheres que, aparentemente machistas, não o são precisamente por lhes faltar o seu elemento essencial: é o caso do homem que manda a mulher para a cozinha simplesmente porque ela cozinha bem e ele não (quando muito será mal educado e egoísta) ou do marido que bate na mulher tal como bate no filho (simplesmente porque é uma besta); apesar de reprováveis, as suas condutas não são animadas por qualquer ideia de discriminação.
Para concluir, de referir que, por estranho que pareça, também as mulheres podem ser machistas - basta pensar na eventualidade de uma lesbiana activa incorporar no seu pensamento a superioridade masculina (para além dos trejeitos congéneres).
Seja como seja, admitir as diferenças entre homens e mulheres é constatar a diversidade; crer na obrigatoriedade de os colocar em compartimentos estanques, uma asneira. Afinal, podem haver dois géneros, mas há uma só Humanidade - logo, só pode haver um Direito Natural. Portanto, nenhum tipo de machismo faz sentido.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
sábado, 17 de novembro de 2007
Desculpas
Lamenta-se o Zé Cid das terras de Sua Majestade (Elton John, para quem não estiver familiarizado com a analogia) que "sorry seems to be the hardest word". A queixa assume contornos de melodrama quando a ele se junta uma cambada de mocetões bem-parecidos com ar sofredor, de seu nome "Blue": expressões faciais de angústia, gestos criteriosamente coreografados e vozes semi-embargadas pela aflição, numa apelação plástica e lamecha à sensibilidade lúbrica das petizas (mais do que um público-alvo, a única razão de ser da existência do produto).
Teatral. Mas pior do que o caliginoso trecho em si é esta ideia que transmite, de que o simples acto de pedir desculpas é quiçá o mais árduo encargo que pode incidir sobre alguém, uma hercúlea tarefa só ao alcance dos predistinados: não é. Portanto, não se deve andar aí a deseducar as adolescentes.
Na verdade, pedir desculpas é relativamente fácil; o difícil é evitar as atitudes nocivas que subjazem ao pedido. Aliás, deve ser a isto que aludem aqueles que vociferam que as desculpas não se pedem, evitam-se (se assim for, estão enganados, pois constituindo elas apresentações de motivos tendentes a atenuar a culpa ou expressões de arrependimento, se forem evitadas não haverá retractação nenhuma, o que soa a injustiça ainda maior).
Mais do que uma acentuação de carácter, um pedido de desculpas sincero é indício de maturidade - através dele, o rogador procura remendar uma falta de pequena ou média gravidade (para casos de maior gravidade o pedido adequado é o de perdão). E desengane-se quem crê na desnecessidade de se retractar quando o dano é mínimo ou mesmo aparentemente inexistente: tal como a água mole em pedra dura, também as pequenas perniciosidades vão deixando marcas sob a forma de mágoas acumuladas, corroendo laços de afectividade que acabam por apodrecer.
Menos empáfia, mais correcção, e lançam-se as bases para a reconciliação. Afinal, mesmo aquele tema admite, num rasgo de siso, que (fugir desse dever) "it's a sad, sad situation and it's gotten more and more absurd".
Teatral. Mas pior do que o caliginoso trecho em si é esta ideia que transmite, de que o simples acto de pedir desculpas é quiçá o mais árduo encargo que pode incidir sobre alguém, uma hercúlea tarefa só ao alcance dos predistinados: não é. Portanto, não se deve andar aí a deseducar as adolescentes.
Na verdade, pedir desculpas é relativamente fácil; o difícil é evitar as atitudes nocivas que subjazem ao pedido. Aliás, deve ser a isto que aludem aqueles que vociferam que as desculpas não se pedem, evitam-se (se assim for, estão enganados, pois constituindo elas apresentações de motivos tendentes a atenuar a culpa ou expressões de arrependimento, se forem evitadas não haverá retractação nenhuma, o que soa a injustiça ainda maior).
Mais do que uma acentuação de carácter, um pedido de desculpas sincero é indício de maturidade - através dele, o rogador procura remendar uma falta de pequena ou média gravidade (para casos de maior gravidade o pedido adequado é o de perdão). E desengane-se quem crê na desnecessidade de se retractar quando o dano é mínimo ou mesmo aparentemente inexistente: tal como a água mole em pedra dura, também as pequenas perniciosidades vão deixando marcas sob a forma de mágoas acumuladas, corroendo laços de afectividade que acabam por apodrecer.
Menos empáfia, mais correcção, e lançam-se as bases para a reconciliação. Afinal, mesmo aquele tema admite, num rasgo de siso, que (fugir desse dever) "it's a sad, sad situation and it's gotten more and more absurd".
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Consideração
Ditam as regras da boa educação que respeitar o próximo é acto exigível e que a sua omissão é condenável; a graduação deste ordenamento é tão mais elevada quanto a pessoa em causa for digna da nossa deferência, e por norma a sua prevaricação, uma vez detectada, é reprovada pela sociedade.
No entanto, algures entre a mera indiferença e o mais elementar respeito, existe um outro modo de actuar, que tantas vezes é desprezado ou passa despercebido - o acto de ter consideração por outrem. Quem a tem, fá-lo não por imposição mas por opção. Porque examina ponderadamente as repercussões que a sua conduta pode ter na outra pessoa, porque pauta a sua acção por critérios de especial atenção para com ela. Voluntariamente, sem que tal lhe seja imposto.
Nesse limbo de inexigibilidade, quem assim procede marca a diferença pela elevação.
No entanto, algures entre a mera indiferença e o mais elementar respeito, existe um outro modo de actuar, que tantas vezes é desprezado ou passa despercebido - o acto de ter consideração por outrem. Quem a tem, fá-lo não por imposição mas por opção. Porque examina ponderadamente as repercussões que a sua conduta pode ter na outra pessoa, porque pauta a sua acção por critérios de especial atenção para com ela. Voluntariamente, sem que tal lhe seja imposto.
Nesse limbo de inexigibilidade, quem assim procede marca a diferença pela elevação.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Civilização
Num conhecido aforismo, o famoso escritor de ficção científica Arthur C. Clark afirmava que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia. Houvesse uma máquina do tempo e pudesse um habitante de séculos remotos visitar-nos, decerto se espantaria num maravilhamento mais ou menos sobressaltado, misto de prazer inesperado e temor reverencial, confirmando as palavras do autor (embora nem fosse preciso ir tão longe - bastaria dizer que, na primeira vez em que um jipe entrou no Butão, aldeões fugiram em desespero por julgarem tratar-se de um dragão, enquanto outros, mais corajosos, aproximaram-se do veículo para lhe oferecerem comida).
A afirmação adquire cada vez mais propriedade, tais são os assombrosos avanços da técnica e electrónica modernas, dentre os quais se destaca a nanotecnologia - a tecnologia em miniatura, que, no limite, poderá permitir o próprio reordenamento dos átomos por forma a criar qualquer objecto desejado ou estrutura possível de acordo com as leis da física!
A marcha do progresso científico é impetuosa; todavia, ao conduzir o Homem no sentido do desenredo da natureza e da sua manipulação para fins próprios, confere-lhe um poderio imensurável: no extremo, a força para se autodestruir, seja através da poluição irreversível do meio ambiente ou mediante um conflito nuclear. E a seta deste desenvolvimento é inexoravelmente ascendente, sem estorvo do perigo que comporta.
Tamanha evolução é derivada da civilização, porém esta não se resume a um desenvolvimento científico e tecnológico; a sua concepção abrange todo um vasto conjunto de preceitos que enformam a cultura social respectiva, desde os seus usos e costumes às suas artes. No entanto, não existe genuína civilização sem liberdade, assim como não há liberdade sem respeito pelos direitos dos outros; pelo que um dos seu elementos essenciais é o Direito, preventivo e repressivo.
Alardearão os tribalistas militantes, tão em voga na actualidade, que o homem urbano, com a sua técnica moderna e sofisticada, se afastou irreversivelmente da natureza e se tornou frio e automatizado; os mais afoitos proclamarão mesmo o regresso às origens indígenas. Mas tal seria cercear inelutavelmente a característica instintiva e distintiva do ser humano de ir cada vez mais longe, inclusive no que à investigação dos fenómenos do nosso cosmos concerne.
A civilização surge então como a camisa-de-forças da animalidade: o único envoltório capaz de, a um tempo, e apesar dos riscos inerentes, propiciar ao ser humano as condições para realizar todo o seu potencial inato e aventureiro e refrear (pelo menos em parte), a sua índole selvagem, humanizando-o.
A afirmação adquire cada vez mais propriedade, tais são os assombrosos avanços da técnica e electrónica modernas, dentre os quais se destaca a nanotecnologia - a tecnologia em miniatura, que, no limite, poderá permitir o próprio reordenamento dos átomos por forma a criar qualquer objecto desejado ou estrutura possível de acordo com as leis da física!
A marcha do progresso científico é impetuosa; todavia, ao conduzir o Homem no sentido do desenredo da natureza e da sua manipulação para fins próprios, confere-lhe um poderio imensurável: no extremo, a força para se autodestruir, seja através da poluição irreversível do meio ambiente ou mediante um conflito nuclear. E a seta deste desenvolvimento é inexoravelmente ascendente, sem estorvo do perigo que comporta.
Tamanha evolução é derivada da civilização, porém esta não se resume a um desenvolvimento científico e tecnológico; a sua concepção abrange todo um vasto conjunto de preceitos que enformam a cultura social respectiva, desde os seus usos e costumes às suas artes. No entanto, não existe genuína civilização sem liberdade, assim como não há liberdade sem respeito pelos direitos dos outros; pelo que um dos seu elementos essenciais é o Direito, preventivo e repressivo.
Alardearão os tribalistas militantes, tão em voga na actualidade, que o homem urbano, com a sua técnica moderna e sofisticada, se afastou irreversivelmente da natureza e se tornou frio e automatizado; os mais afoitos proclamarão mesmo o regresso às origens indígenas. Mas tal seria cercear inelutavelmente a característica instintiva e distintiva do ser humano de ir cada vez mais longe, inclusive no que à investigação dos fenómenos do nosso cosmos concerne.
A civilização surge então como a camisa-de-forças da animalidade: o único envoltório capaz de, a um tempo, e apesar dos riscos inerentes, propiciar ao ser humano as condições para realizar todo o seu potencial inato e aventureiro e refrear (pelo menos em parte), a sua índole selvagem, humanizando-o.
sábado, 10 de novembro de 2007
Feminismo
"Onde há galo, galinha não canta" e "Em casa de varão manda ele e ela não" são aljôfares de sabedoria popular que ainda hoje se ouvem. Provenientes do machismo mais enraizado, derivam de padrões comportamentais que remontam à pré-história: o macho australopiteco, nada versado na arte da sedução (porém imbatível na técnica de engate), depois de tomar a fêmea desejada arrastava-a para a caverna. Uma vez saciado, ia caçar, enquanto ela ficava a cuidar das lides da gruta e da domesticação da prole. E tudo se processava sem grandes contestações.
A parceria opressora manteve-se ao longo de toda a História: de um lado eles, mandantes e independentes, do outro elas, solícitas e parideiras, numa cultura falo cêntrica em que as mulheres pouco mais eram do que um objecto.
Na década de 60 do século passado, a viragem local: na sociedade ocidental florescem o movimento hippie, a revolução sexual e o feminismo. Este preconizava a igualdade entre os sexos, promovendo e exaltando a personalidade, carácter e capacidades das mulheres, em detrimento da mera valorização exterior, vista como fútil e superficial. E inúmeras conquistas foram asseguradas por essa imprescindível rebelião, quer ao nível do próprio corpo quer nos mais variados quadrantes sociais, do trabalho à política.
Com o virar do século assiste-se, porém, a um fenómeno retroactivo: a mulher moderna e bem nutrida dos chamados países desenvolvidos, prestes a libertar-se das amarras do machismo, anseia por uma espécie de regresso reciclado ao passado. Paradoxalmente, ambiciona em simultâneo ser levada a sério e constituir-se como um objecto pitoresco de desejo. Almeja a fama a qualquer custo, nem que para tal seja preciso achocalhar-se em reality shows duvidosos; aspira a ser figurante alegadamente sensual em capas de revistas masculinas; assoma na publicidade em constantes exibições públicas de equívoco erotismo; embrenha-se na noite em vestes provocatórias; é escrava das modas e dos modelos artificiais de beleza por elas ditados; e cada vez mais valoriza a carteira recheada como critério de escolha de companheiro.
Basta folhear qualquer revista feminina para constatar que longe vão os tempos de queimar soutiens ou deixar crescer tenebrosos apêndices capilares nas axilas: essa mulher actual sucumbiu ao primitivo apelo natural para se ornar com garridice e exibir com vaidade, identificando-se crescentemente com o exterior e valorizando-se conforme a capacidade de fazer o macho salivar.
Tudo isto enquanto nos antípodas, em culturas autocráticas ou aborígenes, verdadeiras heroínas são continuamente sujeitas a todas as formas de degradação, humilhadas e curvadas sob o jugo torcionário de algozes mais próximos de hominídeos do que de homens. Vivendo existências atormentadas, sofridas. Mas que, mesmo nessa desesperada carência por emancipação e contra todas as probabilidades, não desistem de acalentar a esperança de liberdade. Essas sim, verdadeiras feministas, de quem nos chegam constantemente relatos do sofrimento, mas também de um desconsolado encanto: engolfadas em tanta crueldade, ainda assim conseguem cultivar valores essenciais de amor e humanidade.
Quanto a oeste, algo de novo: uma mulher aburguesada, descendente de um feminismo do tipo ferrão de abelha, que após exercer com êxito a função para a qual foi criado, desfalece, moribundo. No íntimo, porque quer, embora de forma tácita e consentida, continuar a ser (ainda que docemente) dominada.
Os machistas agradecem.
A parceria opressora manteve-se ao longo de toda a História: de um lado eles, mandantes e independentes, do outro elas, solícitas e parideiras, numa cultura falo cêntrica em que as mulheres pouco mais eram do que um objecto.
Na década de 60 do século passado, a viragem local: na sociedade ocidental florescem o movimento hippie, a revolução sexual e o feminismo. Este preconizava a igualdade entre os sexos, promovendo e exaltando a personalidade, carácter e capacidades das mulheres, em detrimento da mera valorização exterior, vista como fútil e superficial. E inúmeras conquistas foram asseguradas por essa imprescindível rebelião, quer ao nível do próprio corpo quer nos mais variados quadrantes sociais, do trabalho à política.
Com o virar do século assiste-se, porém, a um fenómeno retroactivo: a mulher moderna e bem nutrida dos chamados países desenvolvidos, prestes a libertar-se das amarras do machismo, anseia por uma espécie de regresso reciclado ao passado. Paradoxalmente, ambiciona em simultâneo ser levada a sério e constituir-se como um objecto pitoresco de desejo. Almeja a fama a qualquer custo, nem que para tal seja preciso achocalhar-se em reality shows duvidosos; aspira a ser figurante alegadamente sensual em capas de revistas masculinas; assoma na publicidade em constantes exibições públicas de equívoco erotismo; embrenha-se na noite em vestes provocatórias; é escrava das modas e dos modelos artificiais de beleza por elas ditados; e cada vez mais valoriza a carteira recheada como critério de escolha de companheiro.
Basta folhear qualquer revista feminina para constatar que longe vão os tempos de queimar soutiens ou deixar crescer tenebrosos apêndices capilares nas axilas: essa mulher actual sucumbiu ao primitivo apelo natural para se ornar com garridice e exibir com vaidade, identificando-se crescentemente com o exterior e valorizando-se conforme a capacidade de fazer o macho salivar.
Tudo isto enquanto nos antípodas, em culturas autocráticas ou aborígenes, verdadeiras heroínas são continuamente sujeitas a todas as formas de degradação, humilhadas e curvadas sob o jugo torcionário de algozes mais próximos de hominídeos do que de homens. Vivendo existências atormentadas, sofridas. Mas que, mesmo nessa desesperada carência por emancipação e contra todas as probabilidades, não desistem de acalentar a esperança de liberdade. Essas sim, verdadeiras feministas, de quem nos chegam constantemente relatos do sofrimento, mas também de um desconsolado encanto: engolfadas em tanta crueldade, ainda assim conseguem cultivar valores essenciais de amor e humanidade.
Quanto a oeste, algo de novo: uma mulher aburguesada, descendente de um feminismo do tipo ferrão de abelha, que após exercer com êxito a função para a qual foi criado, desfalece, moribundo. No íntimo, porque quer, embora de forma tácita e consentida, continuar a ser (ainda que docemente) dominada.
Os machistas agradecem.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Cuspideiras
Aptidão para dar ao laço, dedo ligeiro e premente no gatilho, domínio da cavalgaria mais veloz, propensão para emborcar whisky. Ou então a imagem melancólica de um vulto sombrio e errante, no dorso de um cavalo a trote, em direcção ao pôr-do-sol. Talvez tocando harmónica para enganar a solidão. Tudo isto são estereótipos dos filmes do oeste longínquo; todos eles constituem apelos a uma nostálgica e selvagem masculinidade.
Mas o quadro não ficaria completo sem a expectoração, espontânea ou provocada. Aquele momento agridoce em que qualquer cowboy que se prezasse deveria remeter-se ao silêncio e, numa calma sem pestanejes, puxar de um escarro. O parceiro fez batota no poker? Nada de insultos ou histerias efeminadas, pouco dignificantes: apenas um olhar duro, glaciar. Seguido da delonga, do suspense. E finalmente, da cuspidela, espessa, abundosa, em alternativa à berraria. Tudo isto eram preciosos instantes de recolhimento que antecediam a acção.
O que acontece hoje em dia? Perante situações de conflito, tantas vezes fúteis, o varão ofendido discute inutilmente, grita desbragadamente e gesticula num frenesim. Porquê? Porque não teve autocontrolo. Porque não se retirou para dentro de si mesmo para avaliar a situação friamente. Se calhar, porque não parou para pensar. E escarrar.
Cuspir para o chão é hoje tido como falta de civismo? Naturalmente. Por isso mesmo, deveriam, à imagem do velho oeste, ser instaladas cuspideiras em pontos estratégicos. Escarradeiras para usarmos e abusarmos quando fossemos confrontados com certas ocasiões adversas. Já não apenas como substituto da contenda verbal, como nos tempos dos saudosos vaqueiros (que depois do referido acto normalmente encetavam a bordoeira da praxe), mas sim ao serviço da contenção, da verdadeira civilidade. Em face de uma contenda e ante a possibilidade de a evitar, o indivíduo remeter-se-ía a um instante de ponderação e expulsaria o seu fervor pelo cuspo, moderno, de fino recorte, devidamente direccionado ao escarrador. Com respeito pelos presentes e para secreta admiração das mulheres. Depois desse momento de catarse, uma de duas: ou promoveria o diálogo, ou arrepiaria caminho. E uma cuspidura sentida poderia valer mais do que uma palavra inopinada.
Mas o quadro não ficaria completo sem a expectoração, espontânea ou provocada. Aquele momento agridoce em que qualquer cowboy que se prezasse deveria remeter-se ao silêncio e, numa calma sem pestanejes, puxar de um escarro. O parceiro fez batota no poker? Nada de insultos ou histerias efeminadas, pouco dignificantes: apenas um olhar duro, glaciar. Seguido da delonga, do suspense. E finalmente, da cuspidela, espessa, abundosa, em alternativa à berraria. Tudo isto eram preciosos instantes de recolhimento que antecediam a acção.
O que acontece hoje em dia? Perante situações de conflito, tantas vezes fúteis, o varão ofendido discute inutilmente, grita desbragadamente e gesticula num frenesim. Porquê? Porque não teve autocontrolo. Porque não se retirou para dentro de si mesmo para avaliar a situação friamente. Se calhar, porque não parou para pensar. E escarrar.
Cuspir para o chão é hoje tido como falta de civismo? Naturalmente. Por isso mesmo, deveriam, à imagem do velho oeste, ser instaladas cuspideiras em pontos estratégicos. Escarradeiras para usarmos e abusarmos quando fossemos confrontados com certas ocasiões adversas. Já não apenas como substituto da contenda verbal, como nos tempos dos saudosos vaqueiros (que depois do referido acto normalmente encetavam a bordoeira da praxe), mas sim ao serviço da contenção, da verdadeira civilidade. Em face de uma contenda e ante a possibilidade de a evitar, o indivíduo remeter-se-ía a um instante de ponderação e expulsaria o seu fervor pelo cuspo, moderno, de fino recorte, devidamente direccionado ao escarrador. Com respeito pelos presentes e para secreta admiração das mulheres. Depois desse momento de catarse, uma de duas: ou promoveria o diálogo, ou arrepiaria caminho. E uma cuspidura sentida poderia valer mais do que uma palavra inopinada.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Subestimar
O acto habitualmente corriqueiro de subestimar alguém padece de dois vícios essenciais: o primeiro, evidente e soberbo, é a auto - sobrestimação; o segundo, mediato e ilusório, é a persuasão de que se pode conhecer outrem integralmente.
Certeza
São vulgares as referências a certezas expressas em fracções. Ouvem-se e lêem-se pessoas a exprimirem-se como tendo 87%, 92% ou 98% de certeza do que quer que seja. E assim vão propalando alegremente a sua exactidão. Quando partem, desde logo, de uma premissa errada: é que a percentagem remanescente é de incerteza, de dúvida. Ora, onde há a mais pequena réstea de dúvida não pode haver certeza. Donde se conclui aliás que, quando há realmente certeza, é escusado o emprego de adjectivos redundantes, dado que ela, por si só, tem que conter 100% de convicção - a expressão "certeza absoluta" não passa, pois, de um pleonasmo. Que pode ser perigoso a muitos títulos.
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