"Há que dizê-lo com frontalidade" - a frase, que andou nas bocas do povo e foi celebrizada pelo escritor e jornalista Baptista - Bastos, encerra em si uma ideia de virtude. Uma qualidade dos que cultivam a franqueza como baluarte do carácter. Que não encobrem aquilo que pensam, que são avessos a intrigas.
Porém, o conceito tende a ser mal apreciado: muitos indivíduos, adoptando habitualmente uma postura tribunícia, desculpam-se na frontalidade para darem vazão à sua má índole. Metralham as palavras, depreciam o receptor, destorcem quaisquer fundamentos objectivos da mensagem.
Ora, existem muitas formas de veicular a verdade; mas a frontalidade séria pertence a quem se manifesta com integridade, procurando levar em conta a sensibilidade do destinatário. Não aos arruaceiros ardilosos do verbo, que em vez de confrontarem, afrontam.
sábado, 27 de outubro de 2007
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Crítica
O problema da crítica séria, construtiva, que visa contribuir para a evolução daquilo a que se dirige, é que dá muito trabalho. Implica um conhecimento contextual e uma análise diligente do objecto em causa. Nem que seja para exprimir desacordo. É que mesmo para divergir, é necessário esmero. Senão não passa de crítica de alcova.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
sábado, 20 de outubro de 2007
Passadeiras
É oficial: não somos um povo de passadeiras. Sabe-se que a marca zebrada confere prioridade ao peão; mas esgota-se aí o conhecimento do tema. Não têm livro de instruções nem indicação do procedimento. Resultado: os condutores, ora desrespeitam pura e simplesmente a sinalização, ora hesitam, ora transpõem a distância que deviam guardar, parando em cima delas; os transeuntes, ora aguardam timidamente nas bordas dos passeios, ora entram a medo, ora aceleram o passo encetando uma quase correria em sinal de desculpas por atrasarem a condução alheia. Por vezes iniciam uma normal travessia, mas chegados à marca que lhes confere primazia retardam triunfantemente o passo para mostrar quem manda.
O caso chega a ter o seu quê de burlesco; não obstante, também pode ser trágico. O que nos deixa em dívida para com a urbanidade.
O caso chega a ter o seu quê de burlesco; não obstante, também pode ser trágico. O que nos deixa em dívida para com a urbanidade.
Amizade
A qualidade de uma amizade é directamente proporcional ao peso que se consegue carregar quando ela se torna um fardo.
Sensacionalismo
Receita do agrado dos mais credenciados tablóides, de preparação simples e acessível a qualquer jornalista despiciendo ou comentador ufano. Consiste em recolher a informação, de preferência parcelarmente, a qual deverá de seguida ser decomposta e granulada. Serve-se então em rajadas de areia arremessadas aos olhos dos incautos. Consumir preferencialmente a quente.
Muito apropriada para ocasiões de relativa acalmia social, é uma iguaria de fácil digestão, em grande parte devido ao facto de o elemento excrementício já constar em abundância dos ingredientes naturais.
Muito apropriada para ocasiões de relativa acalmia social, é uma iguaria de fácil digestão, em grande parte devido ao facto de o elemento excrementício já constar em abundância dos ingredientes naturais.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Simpatia
São intrigantes os motivos que levam muito boa gente de valimento a rejeitar sistematicamente o sorriso alheio. Face à simpatia do próximo, exibem carrancas sombrias. Confrontadas com a naturalidade de quem se lhes dirige por bem, erguem-se em pedestais de aversão. Dissimuladamente. Eventualmente, chegam mesmo a nutrir um secreto sentimento de supremacia, de intingibilidade.
Logro. É que normalmente, a simpatia genuína está associada à despretensão; esta, à espontaneidade; e esta, à capacidade de se ser fiel a si mesmo, sem sentir necessidade de ostentar socialmente sucessivas camadas de máscaras. E quem assim é, normalmente está-se nas mais garridas tintas para esses esquálidos de trazer por casa.
Logro. É que normalmente, a simpatia genuína está associada à despretensão; esta, à espontaneidade; e esta, à capacidade de se ser fiel a si mesmo, sem sentir necessidade de ostentar socialmente sucessivas camadas de máscaras. E quem assim é, normalmente está-se nas mais garridas tintas para esses esquálidos de trazer por casa.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Arte
A verdadeira arte é uma combinação de inspiração, empenho, regras e talento que, no deslumbramento da sua mistura, nos reduz à nossa insignificância; é para quem pode, não para quem quer.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Touradas
Quando o orgulho viril leva um homem vestido de collants e lantejoulas a enfiar a estaca no touro; quando, por pundonor, oferece a pélvis à cabeça deste, em sinal de desafio; e quando os compartes, identicamente trajados, se agarram ao rabo do animal com sofreguidão, tudo isto perante a erecção da populaça excitada nas bancadas, está tudo dito quanto à bestialidade da cena.
Políticos
Os políticos deveriam levar a cabo a sua actividade com espírito de missão e não com ambição de carreira; destarte aplicariam indispensáveis medidas estruturais, sabendo de antemão que tal lhes sacrificaria o poleiro.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Igualdade
Quando um japonês é anfitrião, é de bom-tom arrotar sonoramente após o repasto; simboliza satisfação plena. A ausência dessa sentida exoneração gasosa pode ser mesmo vista como sinal de desrespeito para com aquele que nos convida. Já quando o anfitrião é ocidental, qualquer expulsão ruidosa de ventosidades gástricas, por mínima que seja, é seguramente intepretada como sinal de péssima educação. Mais ainda se não for acompanhada pelo respectivo e discreto pedido de licença.
O convidado que quiser ser igualmente cortês com ambos os anfitriões terá então que adoptar comportamentos totalmente diferentes para com cada um deles.
É que a verdadeira igualdade promove-se tratando desigualmente aquilo que é desigual.
O convidado que quiser ser igualmente cortês com ambos os anfitriões terá então que adoptar comportamentos totalmente diferentes para com cada um deles.
É que a verdadeira igualdade promove-se tratando desigualmente aquilo que é desigual.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Praxes académicas
As praxes académicas são um dos últimos redutos babilónicos aceites numa sociedade dita civilizada.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Bondade
Nascemos; e passamos os primeiros estágios da infância mergulhados no mais profundo oceano de egocentrismo. Agimos como pequenos déspotas não esclarecidos da existência de um mundo exterior; tudo orbita em torno de nós. É um apelo natural.
Crescemos; e só uma educação regrada aliada a uma boa integração social podem inverter aquela tendência desmedida. Eventualmente, até, proporcionar as condições de desenvolvimento da inclinação para praticar o bem.
O ser humano não é intrinsecamente bom; mas pode ser potencialmente bom.
Crescemos; e só uma educação regrada aliada a uma boa integração social podem inverter aquela tendência desmedida. Eventualmente, até, proporcionar as condições de desenvolvimento da inclinação para praticar o bem.
O ser humano não é intrinsecamente bom; mas pode ser potencialmente bom.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
sábado, 6 de outubro de 2007
Erro
Errar, diz-se, é humano. Sendo sempre um desvio de caminho, o erro pode conduzir a atalhos obscuros ou a estradas luminosas. Por vezes, somos por ele levados a reboque; outras vezes, escolhemos a direcção a seguir. Mas quando optamos pelo erro consciente para prejudicar outrem, errar passa a ser desumano.
Animais
África profunda. No esplendor da savana, a natureza, tão sábia quanto implacável, impõe a lei da selva. Ser o mais forte é condição ingénita para sobreviver. Os padrões de comportamento variam de acordo com as espécies animais; mas estes limitam-se a reagir a estímulos, não importa quão inóspito seja o meio. Em pleno estado de permanente confronto, a premeditação, grau mais elevado da culpabilidade, tão daninha e perversa no meio humano, não tem aqui lugar.
Casa do vizinho. Na amargura de um quotidiano frustrado, um humano descarrega a mesquinhez agredindo o seu cão. De uma fidelidade irrestrita, este não reage, sendo mesmo capaz de acumular investidas sucessivas, magoado. Daria, ainda assim, a vida pelo dono.
Se quisermos aprender com a realidade, olhemos para os animais: do alto da sua sensibilidade própria, reduzem-nos frequentemente à classe de irracionais.
Casa do vizinho. Na amargura de um quotidiano frustrado, um humano descarrega a mesquinhez agredindo o seu cão. De uma fidelidade irrestrita, este não reage, sendo mesmo capaz de acumular investidas sucessivas, magoado. Daria, ainda assim, a vida pelo dono.
Se quisermos aprender com a realidade, olhemos para os animais: do alto da sua sensibilidade própria, reduzem-nos frequentemente à classe de irracionais.
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Entrelinhas
Por definição, são espaços entre linhas. Por conveniência, são expedientes usados na comunicação entre as pessoas para distorcer o rigor da mensagem, lançando a semente da ambivalência. Empregam-se por quem gosta de dizer o que quer sem querer dizer o que diz.
Efemeridade
Saímos das cavernas e lançámo-nos à conquista das estrelas. A efemeridade da vida humana, trémula no seu precário equilíbrio, é a verdadeira propulsão que nos compele a ultrapassar todas as fronteiras.
Opinião
Normalmente, quando alguém emite uma opinião não transmite o seu modo pessoal de ver. Antes se arroga, sob a capa embusteira da subjectividade, de uma certeza absoluta que não admite prova em contrário. Pior: fá-lo frequentemente sem conhecimento adequado do assunto em causa.
Conservadorismo
Há-o de 3 tipos: o saudosista, cristalizado num passado caduco; o imobilista, avesso à mudança; e o moderado, preservador das boas lições práticas ensinadas pela escola da vida, mas de mente aberta a experiências e aprendizados vindouros.
O primeiro e o segundo, aríetes da estagnação, são os velhos do Restelo: a história passa por eles sem que eles passem pela história - as suas vistas curtas geram antagonismos de expressão radical.
Os terceiros são a força motriz daquela história que não se faz desequilibradamente ou por capricho - preferem a evolução à revolução.
O primeiro e o segundo, aríetes da estagnação, são os velhos do Restelo: a história passa por eles sem que eles passem pela história - as suas vistas curtas geram antagonismos de expressão radical.
Os terceiros são a força motriz daquela história que não se faz desequilibradamente ou por capricho - preferem a evolução à revolução.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Origem
A ciência comprova-o: somos todos produto de um inefável acontecimento cósmico ocorrido há biliões de anos. Foi desígnio? É comum e só harmonizando-nos o poderemos prosseguir. Foi acaso? Navegamos à deriva e só harmonizando-nos poderemos encontrar algum rumo.
Sim, sabemos que provimos do mesmo ventre singular que deu à luz o universo primigénio e que somos feitos da mesma poeira que compõe as estrelas. Mas esta é uma informação destratada: é que ainda assim teimamos em não nos comportarmos como irmãos.
Sim, sabemos que provimos do mesmo ventre singular que deu à luz o universo primigénio e que somos feitos da mesma poeira que compõe as estrelas. Mas esta é uma informação destratada: é que ainda assim teimamos em não nos comportarmos como irmãos.
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